Acompanhado por ministros e 15 líderes de entidades empresariais, o presidente Jair Bolsonaro comandou ontem uma inusitada marcha do Palácio do Planalto ao Supremo Tribunal Federal para pressionar pela reabertura das atividades econômicas. A pé, com boa parte dos presentes sem máscaras, o grupo foi recebido pelo presidente da Corte, Dias Toffoli.
A marcha de Bolsonaro não teve resultados práticos e provocou críticas e reclamações de ministros, além de evidenciar a crise crescente entre os poderes. Foi uma tentativa clara do chefe do Executivo de pressionar e interferir em outro poder.
Também deu mostras, mais uma vez, de que o presidente parece ter mais preocupação com a economia do que com a saúde, o que é uma falsa dicotomia, já que mortos não consomem e doentes não trabalham.
O passeio do presidente pela Praça dos Três Poderes aconteceu no dia em que o país registrou 610 mortes pelo coronavírus —o terceiro dia seguido com mais de 600 vítimas fatais da epidemia. O Brasil já é o sexto país com mais mortes e sua curva de contaminação ainda está em crescimento.
Enquanto em Brasília o presidente e empresários discutem a reabertura, pelo Brasil prefeitos e governadores endurecem as medidas de isolamento, com instituição de lockdown e aumento do rodízio de veículos nas principais capitais do país.
Esse falta de um enfrentamento organizado e centralizado da doença pode levar o Brasil a uma ruína sanitária, econômica e política de consequências imprevisíveis.
POLÍTICA
Pandemia
-O Brasil registrou 610 novas mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas. É o terceiro dia seguido com mais de 600 óbitos novos por dia —foram 615 na quarta (6), o maior número até agora, e 600 na terça (5). Com isso, chega a 9.146 o número de mortes confirmadas. O país também registrou 9.888 novos casos confirmados de Covid-19 e tem, ao todo, 135.106.
-Ao menos 6,8 milhões de brasileiros já vivem em cidades sob regime de bloqueio completo por causa do novo coronavírus. A medida está em vigor em três capitais, São Luís, Belém e Fortaleza, mas também é alvo de estudo ou foi aplicada parcialmente em outros 13 Estados, incluindo Rio e SP.
-São Paulo amplia rodízio e vai retirar 50% dos carros das ruas da cidade a partir de segunda.
-Com quase 40 mil casos de Covid-19, SP deve ter infecção em todas as cidades até o fim do mês. Segundo estudo feito pelo governo do estado, a cada 3 dias, 38 novos municípios passam a ter doentes.
-Seis estados já têm mais de 90% de UTIs ocupadas, incluindo as da rede privada: AM, PA, CE, PE, MA e RJ.
-Distrito Federal adia novamente a reabertura do comércio. Nova data estabelecida para o retorno das atividades econômicas é o dia 18 deste mês.
Crise institucional
-Bolsonaro, Guedes e empresários vão ao STF para pressionar pelo fim do isolamento contra coronavírus. Grupo seguiu a pé e de surpresa do Palácio do Planalto até a corte e se reuniu com o ministro Dias Toffoli.
-Ministros criticam ida de Bolsonaro ao STF, e Toffoli também é alvo de reclamações. Integrantes da corte viram o gesto como interferência indevida do Planalto no Judiciário.
-Bolsonaro inclui indústrias e construção na lista de atividades essenciais após pressionar STF.
-Merval Pereira, em O Globo, qualifica a ação de Bolsonaro como uma “marcha da insensatez”: “Bolsonaro não pode aumentar pressão para fim do isolamento no momento em que o país entra na hora mais crítica da pandemia” - https://blogs.oglobo.globo.com/merval-pereira/post/marcha-da-insensatez.html
-Em editorial, Estadão afirma que a marcha de Bolsonaro foi uma deslealdade: "Jair Bolsonaro, que tanto diz prezar a lealdade, foi absolutamente desleal com o presidente do STF. O objetivo foi somente usar Dias Toffoli para sua propaganda política desvairada” - https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,deslealdade,70003296041
-Míriam Leitão escreve que a "marcha sobre o Supremo é inadequada e sem sentido” - https://blogs.oglobo.globo.com/miriam-leitao/post/marcha-sobre-o-supremo-e-inadequada-e-sem-sentido.html
Governo Bolsonaro
-O Globo informa que Bolsonaro avalia recriar o Ministério da Segurança Pública.
-Regina Duarte minimiza ditadura e encerra entrevista à CNN com bate-boca com apresentador.
-Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, é expulso do Partido Novo e ataca João Amoêdo.
-Recém-aliado a Bolsonaro, centrão é suspeito de usar apoio e cargos para obter propina, escreve a Folha.
-Órgão entregue por Bolsonaro ao centrão tem orçamento bilionário e histórico de desvios. Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, o Dnocs, será comandado por nome indicado pelo líder do centrão na Câmara.
Caso Moro
- O Planalto não quer entregar o vídeo que provaria a tentativa, por Bolsonaro, de intervir na Polícia Federal do Rio. Ou, então, gostaria de enviar apenas o trecho no qual presidente e o ex-ministro Sérgio Moro interagem.
- Íntegra de vídeo de reunião vira embate entre Moro e governo Bolsonaro no STF. Ministro Celso de Mello, do STF, deve tomar uma decisão sobre o caso nas próximas horas.
- O Globo revela que reunião citada por Moro teve briga, palavrões a críticas à China.
ECONOMIA
Contas públicas
- A pedido de Paulo Guedes, Bolsonaro diz que vetará projeto projeto aprovado pelo Congresso que permite reajuste salarial de servidores.
- Segundo a Folha, recuo de Bolsonaro sobre salário de servidor amplia desgaste e congressistas articulam derrubar veto.
Mercado
- Dólar sobe 2,4% e vai a R$ 5,84, novo recorde histórico.
Atividade
- Investimentos caem 8,9% em março, pior resultado em 25 anos, segundo o Ipea.
- Com pandemia, lucro do BB tem queda de 20%.
- Volume de venda da Ambev cai 27% em abril.
- Prejuízo da Uber aumenta 190% no trimestre.
A Análise do Noticiário de hoje foi escrita por Tiago Pariz e Otávio Cabral.
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