ANÁLISE DO NOTICIáRIO-24/04/2020
4/25/2020
ANÁLISE DO NOTICIÁRIO
O presidente Jair Bolsonaro tem a hercúlea missão de conduzir o Brasil na maior crise da história recente: a pandemia do coronavírus e suas consequências na saúde, na economia, na educação e na sociedade. Não fosse o problema complexo demais, Bolsonaro ainda decidiu criar uma série de crises paralelas para colocar a política brasileira de cabeça para baixo.
Primeiro, no meio da epidemia, o presidente demitiu o ministro da Saúde —não por questões técnicas, mas por picuinhas assessórias. Em seguida, lançou um programa de retomada econômica muito semelhante ao fracassado PAC de Dilma Rousseff, isolando seu ministro da Economia, Paulo Guedes.
Agora, compra uma briga sem razões lógicas com outro pilar de seu governo, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, que pode deixar o cargo ainda na manhã de hoje. Em paralelo, Bolsonaro inicia uma aproximação com os partidos do centrão, indicando uma abertura do governo a indicações políticas.
Em menos de uma semana, Bolsonaro consegue trair três dos principais grupos que lhe levaram à Presidência. Os “antissistema" foram afetados pela aproximação com o centrão. Os "liberais", pelo plano de reativação da economia e o isolamento de Guedes. E os "lava-jatistas" pelo atrito com o símbolo da maior operação de combate à corrupção.
Não é possível ver lógica na ação do presidente, o que já seria preocupante em tempos normais, ainda mais agora em plena epidemia. Tanto o isolamento político com seus radicais quanto o abraço ao centrão só favorecem o vírus.
POLÍTICA
Pandemia
- O Brasil registrou ontem 407 mortes por coronavírus. O número de casos de contaminações atingiu o seu pico, chegando a 3.735 confirmações de covid-19. Com os dados, o Brasil soma 3.313 mortos e 49.492 casos oficialmente confirmados da doença.
- São Paulo segue como o maio alvo de contaminações e mortes pela covid-19: 16.740 casos confirmados e 1.345 mortos. Rio de Janeiro tem o segundo quadro mais crítico, com 6.172 casos e 530 óbitos ao todo. No Ceará, foram registrados 4.598 casos e 266 mortes, seguido por Pernambuco (3.519 casos e 312 mortes) e Amazonas (2.888 contaminações e 234 óbitos).
Bolsonaro x Moro
- Foi publicada no Diário Oficial de hoje a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Esse ato deve levar ao pedido de demissão do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que convocou pronunciamento para as 11h.
- Ontem, Moro, afirmou que só ficaria se tiver autonomia para escolher o substituto de Valeixo. Os generais palacianos tentam apagar mais este incêndio, enquanto presidente e seu ministro disputavam uma queda de braço pública.
- A avaliação possível é que Bolsonaro tenta aparelhar a PF para se blindar do inquérito para investigar quem organizou e financiou as manifestações pró-golpe de Estado do final de semana, que chegariam próximo ao Palácio do Planalto e à família do presidente. Lembrando que seu filho Flávio já é alvo de outro inquérito da PF.
- O centrão, grupo de partidos ao qual Bolsonaro se aproxima, também teria exigido a saída de Valeixo.
Crise política
- O Globo, em editorial, avalia que Bolsonaro cria instabilidade e eleva o custo da crise: “Choque com Moro e abalo de Guedes mostram presidente enredado na própria inépcia para conduzir a nação na pandemia” - https://oglobo.globo.com/opiniao/bolsonaro-cria-instabilidades-eleva-custo-da-crise-1-24390105
- Míriam Leitão compara a ação de Bolsonaro ao ataque às torres gêmeas: “Em 24 horas, o presidente atacou os dois principais pilares do seu governo: os ministros Moro e Paulo Guedes” - https://blogs.oglobo.globo.com/miriam-leitao/post/bolsonaro-ataca-torres-gemeas.html
- Helio Schwartsman, na Folha, vai além e escreve que, em uma semana, três dos principais grupos de eleitores de Bolsonaro foram traídos: os antissistema (pela aproximação com o centrão), os liberais (pelo plano de reativação da economia) e os lava-jatistas (pelo atrito com Moro) - https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2020/04/a-tripla-traicao-de-bolsonaro.shtml
- Vera Magalhães, no Estadão, avalia que "Bolsonaro viu na pandemia do novo coronavírus uma chance para fazer o ‘seu’ governo, sem postos Ipiranga, sem concessões a superministros e sem levar desaforo (mesmo os imaginários) para casa” - https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,analise-bolsonaro-quer-fazer-seu-governo-mas-ha-entraves,70003281103
- Na Folha, Fernando Canzian escreve que "pilares desmoronam e Bolsonaro se entrega a estelionato eleitoral: "Liberalismo econômico e combate à corrupção vão sendo abandonados pelo presidente” - https://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernandocanzian/2020/04/pilares-desmoronam-e-bolsonaro-se-entrega-a-velha-politica.shtml
- Supremo cobra Rodrigo Maia sobre pedido de impeachment. Autores da ação acusam presidente da Câmara de ser omisso na análise do tema.
- Segundo o Estadão, Planalto começa a ter preocupação com andamento de pedido de impeachment de Bolsonaro.
- De acordo com O Globo, militares governistas “avisaram Jair Bolsonaro de que a saída repentina de Sergio Moro poderia fragilizar o presidente diante de um cenário de pressões sociais e políticas, dando força ao movimento pró-impeachment”.
Oposição
- Lula e PT aderem ao 'fora, Bolsonaro' e ampliam frente pelo impeachment. Um dia antes, Ciro Gomes protocolou pedido de impeachment contra o presidente.
Judiciário
- Nas páginas amarelas de Veja, Luís Roberto Barroso crava que “não vai ter golpe”. Ministro diz que democracia é forte o suficiente para se defender de ataques e admite que eleições deste ano talvez tenham de ser adiadas - https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/o-germe-do-golpe-nao-existe-mais-no-brasil-diz-luis-roberto-barroso/
ECONOMIA
Atividade
- Dois milhões de trabalhadores tiveram contrato suspenso após MP. Acordos de redução de jornada e salário ou suspensão de contrato já atingem 3,5 milhões de pessoas; SP reúne quase um terço dos acordos.
- Doria sugere ao comércio adiar para agosto o Dia das Mães. Proposta é bem recebida pelo setor; data é a segunda mais importante para o varejo, atrás apenas do Natal.
Contas públicas
- Paulo Guedes chama plano de retomada da ala militar de novo PAC. Pro-Brasil, anunciado pelo Planalto, projeta que Estado vai usar obras públicas para gerar empregos.
- Empresários sugerem que Guedes use bancos públicos para destravar crédito a empresas. Ministro teve reunião com grupo chamado Coalizão da Indústria.
- Caixa desiste de antecipar segunda parcela do auxílio de R$ 600 por falta de dinheiro e para evitar pedalada.
Análise do Noticiário- Elaborado por Tiago Pariz